A cobertura – quase em tempo real – dos episódios da Operação Lava Jato pelas redes de televisão foram suficientes para tornar qualquer peça de ficção um mero satélite a gravitar em torno de um astro maior chamado realismo absoluto. Cada lance – depoimento, prisão, condução coercitiva, condenação, soltura – mereceu a mais rigorosa transmissão dos meios de comunicação.

Graças à Lava Jato, instituições centenárias e praticamente desconhecidas do grande público brasileiro, como o Supremo Tribunal Federal, tornaram-se objeto de debate em qualquer roda de conversa. Nossas excelências, os ministros – antes confortavelmente relegados ao anonimato – tiveram seus nomes incorporados às rotinas das redações e às conversas dos senadinhos e às redes de apostas nas rodas de conversas.

A Operação Lava Jato tornou íntimos dos brasileiros termos antes totalmente desconhecidos e quase que impronunciáveis, como embargos infringentes. Conceitos jurídicos e penais como delação premiada, acordo de leniência, condução coercitiva, offshore, peculato, usufrutário, foro privilegiado passaram a desfilar incólumes pelas salas de TV. É bem provável que advogados tenham complementado suas graduações após a superexploração dos fatos relativos à operação da República de Curitiba.

A Globo, especialmente, fez da Operação Lava Jato um autêntico Big Brother, valendo-se de todos os recursos audiovisuais pensáveis para impregnar a mente do brasileiro médio de ódio à classe política, e à política, criminalizada a cada Jornal Nacional. O juiz Sérgio Moro – arqui-inimigo de uma esquerda inconformada com os rumos das investigações e celebrado, pelos opositores dos petistas, como salvaguarda de uma nação em bancarrota – viu-se alçado à condição de pop star, celebridade internacional.

Em suma: os desdobramentos e imprecisões das investigações, o PowerPoint das convicções sem provas e as reviravoltas das delações foram fartamente alardeados e, portanto, sobejamente conhecidos de parte majoritária da população brasileira que, quase compulsoriamente, imergiram na trama para desvendar quem matou a Petrobrás. Escrever uma ficção sobre tais fatos, tão controversos quanto carregados de paixões, exigiria, por óbvio, doses cavalares de sobriedade e justeza.

Exibir um drama de ficção televisiva cujos personagens retratados estão vivíssimos e em plena atividade política evidentemente causaria espasmos de toda natureza. Mas, no caso específico da série O Mecanismo, assinada pelo celebrado José Padilha e lançada na última sexta-feira (22) pela Netflix, nem é preciso ter engajamento ideológico ou político com qualquer dos lados acirrados em disputa para argumentar quanto à pobreza franciscana da produção.

Cabe até indagar se o José Padilha de Narcos – aquele que dirigiu Wagner Moura – é o mesmo que agora dirige um Selton Mello com gosto de picolé de chuchu, um estranho messias dilacerado por gilmarianas pitadas de psicopatia. Há uma distância conceitual oceânica entre aquele diretor que narrou a história de Pablo Escobar e este doublé de diretor que agora parece – tanto quanto Gilmar Mendes na concepção de Barroso – incapaz de articular um argumento.

O monólogo inicial, velha e repetidíssima estrutura narrativa, repleta de messianismo vulgar, logo resvala para um proselitismo ainda mais fajuto ao incorporar diálogos ordinários, incompatíveis com qualquer realidade. O senso comum impera numa série que pretende desnudar um tema cuja complexidade exigiria uma abordagem infinitamente melhor elaborada. Jean-Jacques Annaud, ao transpor para o cinema o clássico O Nome de Rosa, de Humberto Eco, convidou uma equipe de medievalistas, dirigida pelo renomado historiador francês Jacques Le Goff, para não correr o risco de imprecisões grosseiras.

Mas sutileza e poesia – a arte, portanto – passaram léguas da película, que parece empenhar-se em demonstrar, minuto a minuto, que mocinhos bem intencionados, loteados em instituições absolutamente isentas de paixões partidárias, arquitetam planos capazes de projetar o Brasil para a Era da Pós-corrupção, mas sem qualquer participação popular; assim, messianicamente, sebastiões contemporâneos nos arrebatariam. Há diálogos desprezíveis, somente imagináveis por uma pequena burguesia salvacionista. E pior: um fantasma conduz toda a trama.

A obra é ruim. A trilha sonora é trash. Há amadorismos gritantes em cada cena. Mas nada pior mesmo que a ideia reinante de que o filme parece destinar-se a imbecis. Sim. O autor do texto parece desprezar o fato de que a ficção tem base numa realidade recente, fartamente conhecida por milhares de pessoas, repletas de fatos sobejamente discutidos no Senadinho. É a liberdade artística sobrepondo-se à honestidade intelectual, num Brasil marcado por violência em vários níveis, com torcidas partidárias mutuamente se atracando em praça pública.

José Padilha abusou da regra três, onde menos vale mais. Ninguém aguardava um documentário, mas também não se imaginava uma peça política de tão tosco calibre. O que se vê na obra? Com a palavra, o ministro Barroso: “Mau sentimento, uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia, ofensas, grosserias, sem conseguir articular um argumento. Não tem nenhuma ideia. Nenhuma. Só ofende as pessoas. Qual é a sua proposta? Nenhuma. É bílis, ódio, mau sentimento. É uma coisa horrível”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here