OPINIÃO: Sobre pólvora, gozo, festas e risos.

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Por Josafá Santos

Ouço e vejo rojões e fogos no céu, desde o alvorecer do dia. Nenhum deles da favela. Olhei no calendário… ainda não é São João, e o Ano Novo já é antigo. Sigo o som, os sinais de luz no horizonte… de onde vem tanta felicidade, de onde vem tanta alegria?

A pólvora, nos diz a história, foi descoberta algo por volta do ano 1000, pelos chineses. De uso terapêutico em seu inicio, passou a ser usada como combustível e alma nos artefatos pirotécnicos comemorativos daquele povo. Iluminava os céus. Mais tarde, descobriu-se seu uso bélico. Canhões, arcabuzes, pistolas, granadas e bombas… Da alegria, à dor, ah… os caminhos da pólvora. A mesma pólvora usada para curar feridas ou doenças de pele era agora usada para invadir, coagir, colonizar, explorar, dizimar cilvilizações inteiras, que o digam a Àfrica e os ameríndios, em contato com os civilizados europeus. Não foi somente a cruz ou a espada que abriram os caminhos do “novo mundo”; foram também os gritos fumegantes dos canhões. E a mesma pólvora que alimentara esses canhões também alimenta as balas que executam humanos e defenssor@s dos direitos humanos, mundo afora, Brazis adentro. Diga-se, de passagem, especialmente nos cantos e guetos das urbes onde o Estado, ou o Bem Estar Social, melhor dizendo, não chega, como nas favelas, daqui ou do Rio.

Mas insisto, olho o céu, o mesmo céu tão lindamente iluminado há algumas semanas por um apagão quase continental, e vejo luzes pipocantes. Céu onde antes vira uma miríade de estrelas, me lembrando de Olavo Bilac em um de seus poemas, citado numa canção de Belchior: “Ora! Direis ouvir estrelas! Certo, perdes-te o senso…”. Aguço os ouvidos e, não com plena certeza, acho mesmo possível ouvir uns estampidos de garrafas de algo que bem parece ser champagne, estampidos seguidos de uns “vivas!’ e “hurras!” e soltos risos. Olho novamente o calendário (sim, ainda tenho um na parede, talvez ainda na necessidade física do “ver e tocar” o tempo…) para me certificar de em que data do ano eu de fato esteja. É. Decididamente, não é Natal, nem Dia da Fogueira. De onde vem, então, tanto festejo, tanta folia? De onde esse ruidoso e brilhante e pavonesco largo riso? Onde a festa? E porque eu não fora convidado?

Vi então onde residia meu erro. Buscava o umbigo de tanta folguedo, o motivo de tanto festejo, no local errado. Não é o calendário Gregoriano, a folhinha da parede, ou o moderno cronômetro dos nossos computadores disfarçados de telefones, nem nossos relógios digitais, que ditam as vibrações das cordas do nosso músculo cardíaco, vulgarmente chamado de coração; também não é o festim polvorístico (criei agora esse termo, achei que ficou bonito) a razão do riso feliz. Tudo isso, a data em vermelho no calendário, as festas, a bebida, a pólvora queimada, negra ou colorida, os gritos, a orgia que se siga a tudo (tudo isso!) é o resultado, não a causa do festim. O rastro sibilante de luz que risca o céu e que depois explode em som e cores, seguido de “vivas!’ e “hurras!” e desinibidos risos é, na verdade, a materialização do que vibra em nosso peito. Para onde aponto, em que invisto eu a minha libido? Onde busco ou encontro meu prazer? Sim, ali, na sua busca, no seu encalço, perseguição ou uso, está o gozo. Por isso (isso!), acende-se o pavio, queima-se em fogo vivo, arde-se em chamas diante do mundo. Nossos fogos, nossos gritos (“vivas! e “hurras!” e histéricos risos), são a externalização do que habita em nós, a satisfação, o gozo do nosso desejo.

Agora me lembrei que já vira e ouvira esses festejos, fora do tempo da folhinha, antes; me lembrei também que possuo uma TV. A liguei, em alguns minutos tudo se explicara. De fato uma festa se anuncia, quase um carnaval. Antevê-se as danças, os mascarados, os festejantes disfarçados de “anjos” demônios ou vampiros; chega-se mesmo a se antever uma réstia da prometida orgia, que desavergonhadamente, se anuncia, e que promete ser longa, cara, luxuriante e crua. O riso, debochado, de muitos já não se faz contido, já se vêem orgasmos em público. Me lembrei de Cazuza: haverá, já há uma festa, e não me convidaram. Fiquei feliz.

Desliguei a TV. Da janela da minha casa olho novamente o céu, novamente aguço os ouvidos, agora que também já li alguns discursos que volitaram pela tela do meu computador. Respiro fundo, há um cheiro estranho no ar; algo fede. O banquete da festa? A carne é podre, mas ninguém se importa. Carniceiros não são conhecidos por seu paladar afinado, o que lhes marca é o comportamento à mesa de jantar: são chacais, se comportam como tal.

Há um novo “Canavalle!” a se anunciar. Antevejo mais fogos, mais “vivas!” e “hurras!” e patológicos risos, carreatas e showmícios, uma multidão de gente embriagada de si mesma, gritando, vomitando seus excessos pelas ruas, felizes, felizes… felizes! Mas nada disso, nada desse carnaval, vem daquelas áreas de onde a pobreza, a miséria, a fome, estavam sendo expulsas e onde voltam, progressivamente, a fazer ninho, a forçar morada; não vejo ou ouço fogos ou risos vindo dos guetos, das favelas, do campo pobre, dos que moram e morrem nas ruas do nosso país. Na favela, em luto, ainda não há riso. Sim, as luzes de festa vem da Casa Grande, morada reaberta do Senhor, de sua família e de seus agregados e amigos; a senzala, também reaberta? De lá, de cá, onde me vejo, não vejo nem ouço riso, hoje não há canto. Nota: Mas também não vejo ou escuto choro. É bom que a Casa Grande saiba disso.

Olho para o alto. Ouço e vejo rojões e fogos no céu, desde o alvorecer do dia. Essas luzes riscantes e seus pipocos ruidosos, sinais de exuberante folguedo, vem de muitos lugares da cidade, Brasil afora, país adentro. Nenhum deles vem das favelas, ou da periferia.

Josafá Santos é historiador

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