por Matheus Silveira Lima e Fábio Sena

Superadas as inquietações das últimas vinte e quatro horas, temporariamente aquietada a militância e concluída a etapa mais dolorosa do processo – o recolhimento compulsório à cela – Lula finalmente está só, encarcerado na República de Curitiba, vislumbrando o mundo sob uma ótica inédita. A alegada inocência não encontrou eco nos tribunais. Provavelmente, deva estar, num exercício involuntário de autocrítica, indagando-se sobre todo o acervo de realizações que o conduziu ao cadafalso.

Lula se sabe uma ideia: mais que um ex-presidente, mais que um fenomenal líder político. Ele se sabe símbolo e mentor, entusiasta e inspirador de movimentos. Inúmeros movimentos: ideológicos, políticos, partidários, eleitorais. Seu retumbante triunfo eleitoral – a classe operária foi ao paraíso? – equipara-se em intensidade ao naufrágio que agora, silenciosamente, experimenta. Lula está só, numa sala que mede quinze metros quadrados, forçosamente ouvindo-se, compulsoriamente pensando-se.

Nem mesmo o mais habilidoso intérprete da história política se arriscaria a emitir, de imediato, juízo absoluto relativo aos efeitos desta prisão no curto, médio e longo prazos. Será forçoso observar cada movimento até alcançar aquele estágio em que, numa leitura retrospectiva, seja possível apreender – não ainda a verdade histórica, aquela que já dominamos, por exemplo, sobre Getúlio Vargas ou sobre o Golpe Militar de 1964– mas as pistas, os caminhos. Lula é uma liderança complexa, por isso mesmo contraditória, por isso mesmo difícil de aprisionar na lógica formal dos conceitos, das categorias, da matemática simples.

Mas o calor dos acontecimentos já no impele a reflexões sobre o que fomos e o que seremos enquanto Nação. E nos remete às lembranças. Por exemplo: entre o governo de Itamar Franco e o primeiro Governo Dilma, o Brasil experimentou um modelo de exercício de força política sobre o qual Norbert Elias tão bem argumentou em seus estudos: quem tem o Executivo Federal e maioria no Congresso implementa sua visão. Mas isso não significa poder absoluto. Têm posições contrárias, têm negociações, avanços e recuos. Há, como diria o sociólogo alemão, um clássico tabuleiro de xadrez no qual a rainha é muito poderosa, mas depende o tempo todo do peão, dos cavalos, dos bispos.

A rainha não se iguala ao peão, mas depende dele. É o que Norbert Elias chama de interdependência, um dos mais formidáveis conceitos sociológicos do Século XX. Significa que o Presidente da República e seu partido, todo-poderosos, devem estar atentos a todos os extratos da sociedade. Peguemos como exemplo o período de maior hegemonia política de uma corrente de pensamento no Brasil – o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso: o tucanato aprovou dezenas de projetos que, em certa medida, foram responsáveis pela reforma do Estado brasileiro. Mas por que não conseguiu aprovar a privatização da Petrobrás ou dos Correios? Por que foi obrigado a ceder a uma série de políticas sociais?

Simples: era um período em que o Partido dos Trabalhadores, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, os sindicatos e algumas forças nacionalistas ainda reinantes no PMDB exerciam uma pressão sobre o governo, o que se assemelha à pressão que os peões, quando bem organizados no tabuleiro, exercem sobre a rainha. Por isso FHC não avançou, por exemplo, na tão desejada Reforma da Previdência ou na sonhada Reforma Trabalhista. Por outro lado, temos o caso do próprio Luiz Inácio Lula da Silva. Seus governos também cederam. Mantiveram as reformas neoliberais do governo anterior, mesmo as mais ortodoxas, mas impôs uma agenda para o país, como a questão das cotas raciais, um programa de habitação popular que fugia ao padrão excludente da Caixa Econômica Federal. Lula avançou, mas também recuou. Recuou feio no controle social da mídia, motivo de lamentações permanentes em tempos de Lava Jato e partidarização explícita da grande mídia.

A gente experimenta um momento novo. O padrão foi alterado. Vejamos o Caso Temer: dono de altíssima rejeição popular, desmoralizado a cada passo e, apesar de tudo, atropelou quem bem quis e impôs a Reforma Trabalhista, impôs a Intervenção Militar no Rio de Janeiro e não aprovou a Reforma da Previdência por percalços pontuais. E sabem qual o nível de preocupação de Temer com os xingamentos de que é vítima dos salões de festas aos campos de futebol? Zero. É até difícil encontrar um termo na ciência política que defina este padrão. Mas seria um conceito aproximado daquela noção de Thomas Kuhn, o diálogo de surdos. Todos falam, mas ninguém se escuta.

O governo iguala-se, pior ainda, ao monólogo de um surdo: além de não estabelecer diálogo, está surdo até para si mesmo. Valho-me, portanto, de outra formidável expressão, esta de Nestor Duarte, o jurista: o Brasil experimenta um processo de decomposição política. Ou seja, as instituições e todos os processos políticos que emprestavam legitimidade ao contrato social estão apodrecendo em praça pública. E é preciso, em rápidas palavras, atribuir a culpa à Direita – que não tolera o diálogo – e à esquerda, para quem toda crítica é formulada por golpistas e fascistas – que não passarão. Assim, para o senso-comum, a Política virou um lixo, que se deve por à porta para o caminhão conduzir ao aterro.

Sem pretender praticar adivinhação, mas analisando o provável cenário futuro a partir do tabuleiro do presente, é possível admitir que quem ganhar as eleições de Outubro – e caso obtenha maioria no Congresso Nacional – adotará uma severa política de goela abaixo. Se for a esquerda, a perspectiva é chavista. A mídia será regulamentada sem muita conversa e democratismo. Se for a direita, fará como Ludmila: vai chegar chegando arrebentando a zorra toda e que se dane vai querer mais é que se exploda. Vai privatizar a torto e a direito; vai mandar abrir caixa preta do Governo Dilma, vai mandar prender gente. Diálogo zero.

Calculemos Ciro Gomes eleito. É possível imaginá-lo buscando diálogo com alguém? Vai adotar a cadeia nacional de rádio e televisão para governar, fazendo discurso raivoso, sem nenhuma pretensão de recomposição política. Agora imaginemos uma figura desqualificada da marca de Bolsonaro presidente. Alguém em sã consciência acredita que ele vá mesmo se importar com as críticas que a esquerda faz sobre sua homofobia e racismo? Vai chamar todo mundo de canalha e parasita e reeditar o “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

Um espectro ronda o Brasil. E dolorosamente arrasta corações e mentes ao cadafalso, à surdez voluntária, à barbárie, ao lixo. É a decomposição política produzindo a censura. Pior, a autocensura. Interditando a liberdade de expressão. Aniquilando as subjetividades, a irracionalidade – sempre violenta – ganha expressão nas redes sociais e salta para dentro das casas. O conteúdo bélico das falas implode o pensamento, desfigura valores como liberdade, igualdade e fraternidade. Nesta madrugada de domingo, não é possível admitir outra coisa senão que a doutrina do ódio venceu a pedagogia da esperança.

Matheus Silveira Lima é licenciado e Mestre em Ciências Sociais, Doutor em Sociologia e Professor Titular de Ciência Política da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Entre 2009 e 2010 trabalhou como Investigador Visitante no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e é autor de livros publicados no Brasil, Espanha, Portugal, Argentina e México na área de pensamento social brasileiro.

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