George Varanese Neri é um militante em tempo integral. Um militante social, das artes, da cultura, da comunicação. Pensador de língua afiada, mobilizador de opiniões e insurgente, tem se dedicado a por em prática uma série de projetos audaciosos, muitos merecedores de aplausos e premiações. Convidado a tecer comentários acerca da tão propalada reabertura do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima – há cinco anos interditado – ele acabou oferecendo uma análise mais ampla do cenário cultural brasileiro.

Graduado em Comunicação Social com habilitação em Hipermídia pela Faculdade de Tecnologia e Ciências, Campus Salvador, especialista em “Cinema, Expressão e Análise” pela Universidade Católica do Salvador, ele também é fotógrafo, diretor de vídeo, videoartista, “video jockey” e artista plástico, tendo participado de diversas mostras de cinema e vídeo, exposições em salões de artes visuais. Dirigiu o doc-fic “Tragédia do Tamanduá”, o longa de ficção “A doce flauta de Liberdade”, o doc “Sísifo do Vale” dentre outros.

Nesta entrevista exclusiva ao Siga.News, George Varanese tece críticas contundentes à forma como o governo do Estado se comporta em relação à reabertura do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, trazendo à memória a polêmica exoneração da ex-diretora do espaço, Maris Stella Schiavo Novaes. “Presenciei de perto o esforço que ela e muitos outros faziam para manter aquilo lá presente, vivo, inclusivo, sem edital algum”. Também dedica petardos à Secretaria Municipal de Cultura e ao “desgoverno” do presidente Temer.

Abaixo, na íntegra, a entrevista:

Siga.News: Há uma previsão de reabertura do Centro de Cultura no mês de junho, cinco anos depois de interditado? Quais as perspectivas?

George Varanese: Veja bem, Fabio… é uma alegria ter de novo um espaço como o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, por ele ser um ótimo equipamento, mesmo quando estava com deficiências estruturais conseguia ser um ótimo espaço para encontros e apresentações diversas. Agora, ele reformado, pintado, reestruturado, vai continuar sendo um ótimo espaço para agregar e abrigar eventos teatrais, musicais, cinematográficos. Contudo um espaço cultural não se faz apenas por sua estrutura – como um local possível de depósito de pessoas ou de obras… é a mesma coisa de ter um prédio vazio… é uma especulação imobiliária… no caso aqui é uma especulação cultural… um local se faz de gente com ideias, autonomia, vontade, menos burocracia e mais incentivo. Impossível não lembrar do poeta Camilo de Jesus Lima num momentos desses. Precisamos conhecer de fato as pessoas que levam os nomes dos equipamentos—quem foi Camilo, Glauber, porque os nomes deles estão alicerçados? Como perspectiva, respondendo sua pergunta, recordo de um poema de Camilo de Jesus Lima – Elegia do Desiludido:

“Dissequei… Todo o encanto foi-se embora..
Aí môsca-azul, por que te fui matar?”

Siga.News: O governo acaba de lançar um edital por meio do qual disponibiliza o centro de cultura para denominada “reocupação” do espaço. Qual sua opinião sobre este método do governo de convidar artistas de várias linguagens a ocupar por conta própria o espaço cultural?

George Varanese: “A cultura é regra e a arte exceção”. O que quero dizer com isso? Que esse método do governo é do diabo cheio de intenções, ano eleitoral, etc – Salve o diabo, me equivoco! Parece mais uma missa com cerimoniais tão apreciada aqui em Vitória da Conquista. É preciso lembrar que o centro está fechado há 1825 dias, 5 anos. Que ele foi “fechado pelo governo” depois de uma equivocada exoneração da Coordenadora do Centro de Cultura na época (2013), a historiadora Maris Stella Schiavo Novaes.

Leia sobre o assunto neste link: 

Estive presente praticamente todos os dias da precoce gestão de 8 meses de Maris Stella, e presenciei de perto o esforço que ela e muitos outros faziam para manter aquilo lá presente, vivo, inclusivo, sem edital algum. O “edital” era a promoção de uma experiência, da participação, da autonomia, da liberdade, da arte de fato, dos processos de singularização e subjetividades. Porque é a arte que cria a cultura e não ao contrário. Acho o mecanismo do edital extremamente importante principalmente quando ele possibilita e incentiva financeiramente a produção de algum valor simbólico-artístico, o que não foi absolutamente o caso desse edital posto, escarrado praticamente pelos dirigentes dos equipamentos estaduais.

Acham que ao possibilitar pautas gratuitas estão fazendo um favor para o artista? Que precisamos dessa vitrine cerimonial? Precisamos de recurso e espaço e não de zoológico. Soltem os animais! Recentemente uma poeta/prostituta Gisberta Kalil colocou em seu perfil das redes sociais a seguinte reflexão da qual gostaria de transpor para essas linhas, pois me sinto representado, e é uma denúncia ao que me refiro sobre o cerimonial conquistense: “Vocês adoram um artista drogado, boêmio, psicodélico. Adoram uma bixa fechativa para enfeitar seu palco, uma preta empoderada para amenizar sua culpa racista. Vocês adoram as putas, os moradores de rua, as noites nos cabarés, desde que TUDO ISSO esteja longe do seu círculo social, de sua família, de seu relacionamento monogâmico. Vocês querem assistir a revolução dos corpos da sacada de seus apartamentos, querem cheirar cocaína e fumar pedra sentados nas costas das travestis. Vocês querem escrever sobre nossa história, nossos desejos, querem nos por em laboratórios estético-políticos, mas depois vão lavar as mãos nos banheiros. Vocês me enojam! Abutres!”

Siga.News: Quem visita o site da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia percebe que majoritariamente os recursos da cultura são investidos na capital, Salvador. Qual sua opinião sobre esta distribuição desigual de recursos para a cultura?

George Varanese: É lamentável. Se é pela diversidade que reconhecemos a pluralidade estética acho que estamos indo numa direção “monogâmica”. E o que é pior, existe um colonialismo dentro do próprio Estado. O sertão que não virou mar, mas que é imensamente desejado que vire uma espécie de representação minguada do sertão. Recentemente, participei de um edital chamado Bahia na Tela, do qual 42 projetos foram contemplados, sendo apenas três do interior. Um edital que tinha nos seus conceitos e objetivos a diversidade e pluralidade contemplar apenas 3 projetos do interior? Que conceito é esse de diversidade do olhar? Vão dizer mil coisas, mil desculpas, inclusive dizer que os projetos do interior são ruins, pouco satisfatórios, mas é tudo um preconceito mesmo porque eu tenho conhecimento dos projetos inscritos e é tudo a mesma coisa de sempre, visão arcaica e colonizadora do interior. Elomar em seu cd “Tramas do sertão” tem um trecho que ele discorre sobre esse processo de segregacionismo, fato que se estende até os dias de hoje, é um fato. Ouça aqui.

Siga.News: Do ponto de vista do governo municipal, qual sua avaliação sobre a política cultural do novo governo?

George Varanese: “Um pessimista é um otimista bem informado” – Não vejo perspectivas… ações pequenas… uma exposição ali outra acolá… um cerimonial… não tem recurso, quando tem são desviados para pagamentos de pastores para “lei municipal da bíblia”?…

Leia mais aqui: 

E o plano municipal de cultura, cadê?…Kasa Glauber? Cine Madrigal? Como que uma “lei da bíblia” já está em voga e a de cultura não?… Deus no comando! Assim é a tônica. Não tenho muito o que dizer até que me provem o contrário. Vitória da Conquista nunca teve politica cultural em nenhum governo. Teve ações esporádicas no governo anterior, São João, Natal da Cidade, e?… Mas isso não é politica cultural, é evento cultural, gostaria muito que isso fosse entendido. Não vou bater palma para ninguém que se proponha ser paliativo. Isso não quer dizer que a cidade não tenha atores culturais que se movimentam. São muitos em todas as áreas (literatura, cinema, teatro, artes plásticas). Seria cinismo ou ignorância dizer que não existe demanda. Falta é politica cultural consistente por meio de incentivos, via edital, via demanda espontânea, é isso.   https://vimeo.com/160132788

Siga.News: No plano nacional, quanto à interiorização na destinação de recursos, há alguma diferença entre os governos petistas e o de Michel Temer ?

George Varanese: Sim existe. Não podemos dizer que existe um governo Michel Temer, é um desgoverno. É arcaico, oportunista, entreguista sem nenhuma perspectiva, é a confirmação do deserto neoliberal. O governo anterior teve ótimos momentos, com Gilberto Gil e Juca Ferreira, depois entrou numa de tentar entender o processo com Ana Buarque de Holanda, colocando pautas do ECad, um horror! A gente vinha de processos experimentais e extremamente arejados como, por exemplo, o conceito do Creative Commons, da construção de redes criativas, de pontos de cultura espalhados por várias cidades recebendo verba para ações diversas, editais em várias áreas inclusive destinados para pessoas físicas. Hoje temos a consagração da pessoa jurídica, criam-se editais casados com produtoras que tem maior poder de inserção no mercado, o deus mercado de lado e o deus religioso do outro, estamos espremidos. Essa lógica do mercado prioriza os centros econômicos, pois quem consegue captar os recursos são produtoras com mais currículo e é um ciclo vicioso. Como uma produtora menor vai conseguir disputar? Criaram cotas para o Nordeste, mas isso é falho e capcioso porque Salvador, por exemplo, é uma cidade do Nordeste e as produtoras do interior vão disputar com produtoras da capital? Lugar onde se tem mais acesso a recursos. Mas a diferença mesmo desses governos está na ordem do devir, pois existiu de fato um devir, um processo de experimentação que colocou outros corpos em disputa. Esse governo atual usa Roundup.

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