A anunciada reabertura do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima – cinco anos depois de interditado por força de inúmeras deficiências estruturais – vem movimentando a cena artística conquistense e mobilizando opiniões por causa do lançamento de um edital para pautas gratuitas no espaço, que deve voltar a funcionar na segunda metade do mês de junho.

Em entrevista ao Siga.News, a presidente do Conselho Municipal de Cultura, Luiza Audaz, argumentou sua indignação em relação à proposta do governo de praticamente atribuir à classe artística a tarefa de, às próprias custas, reanimar um espaço que perdeu a condição de referência cultural por causa dos milhares de dias que ficou fechado. “Durante o mês de pautas gratuitas, teremos artistas arrastando suas barrigas no chão tentando reanimar um defunto”, afirmou.

Para se ter uma ideia do absurdo do edital, todo artista interessado em ocupar qualquer área do Centro de Cultura para exibir sua arte, deverá assumir uma série de compromissos, como montar seu próprio palco e cobertura, bem como a estrutura para camarim, contratar de bombeiro civil e brigada de incêndio, pessoal de limpeza, eletricista. Além disso, é necessária a instalação de posto médico com equipe de emergência e/ou ambulância.

Abaixo, a íntegra da entrevista com a presidente do Conselho de Cultura, que também tece duras críticas à política cultural local. Segundo ela, a Secretaria Municipal de Cultura não está atenta à potência do mercado cultural dessa cidade. “Nós temos um fluxo de eventos diversos e iniciativas independentes que se multiplicam pela cidade, reforçando o fato de que existe sim uma cadeia produtiva forte e que precisa de fomento”, afirma.

Siga.News: Há uma previsão de reabertura do Centro de Cultura no mês de junho, cinco anos depois de interditado? Quais as perspectivas?

Luiza Audaz: O que foi exposto pela Coordenadora de espaços culturais da SECULT Maria Marighella, em reunião com alguns artistas locais no dia 3 de Maio, é que a partir do dia 10 de Junho o Centro de Cultura já estará pronto. No entanto, já ficamos sabendo que o Governador está com uma agenda prevista em Conquista para o dia 18 de Junho. Então a perspectiva é de que essa reinauguração ocorra nos primeiros 20 dias do próximo mês.

Siga.News: O governo acaba de lançar um edital por meio do qual disponibiliza o centro de cultura para denominada “reocupação” do espaço. Qual sua opinião sobre este método do governo de convidar artistas de várias linguagens a ocupar por conta própria o espaço cultural?

Luiza Audaz: A proposta do ReConquista, nome que a SECULT tem atribuído ao processo de reinauguração do espaço, tem causado alguns estranhamentos para uma parcela expressiva da classe artística local. Ora, nós temos um espaço fechado há cinco anos, que, infelizmente perdeu muito de sua referência em ser um aglutinador de espetáculos, ações culturais diversas e principalmente de público. Ao propor um edital de ocupação gratuita, sem que haja um edital de fomento, patrocinado pelo Estado, que disponibilize prolabores para os espetáculos, nós nos deparamos com uma situação em que o artista terá de se virar sozinho para produzir seu evento, divulgá-lo, arrebanhar o público jovem disperso e o público que dantes freqüentava o espaço, sem que haja nenhum tipo de fomento real. O que me parece é que durante o mês de pautas gratuitas, os artistas vão arrastar suas barrigas no chão tentando reanimar um defunto na tentativa de trazer vida a ele, mas sem estrutura para custear minimamente sua produção. Precisamos que a abertura do Centro de Cultura seja acompanhada por uma política de incentivo disponibilizada pela Secretaria Estadual de Cultura que de fato repare minimamente estes 1738 dias sem arte.

Em minha opinião, um mês de pautas gratuitas é desproporcional a necessidade de apoio que os artistas precisam para que haja uma redinamização real deste espaço e um conseqüente sucesso de público nas atividades propostas. Obviamente é válido e necessário que este espaço gratuito de ocupação aconteça, mas, precisamos fazer uma reflexão um pouco mais além para não naturalizarmos uma política cultural que ainda não enxergou a densidade e a importância de tocar na espinha dorsal de um circuito produtivo cultural deficiente em fomento e incentivo.

O que me preocupa, ainda, é que, segundo o edital, todos os eventos realizados nos anexos, nos pátios externos e nos arredores do teatro terão que cumprir requisitos que nós não temos como arcar, a exemplo de montagem de palco e cobertura, estrutura para camarim, contratação de bombeiro civil e brigada de incêndio, pessoal de limpeza, eletricista, instalação de posto médico com equipe de emergência e/ou ambulância, dentre outros itens expressos no edital. Bancar essa estrutura é significativamente pesado para quem vivenciou uma queda constante de fomento da cadeia produtiva da cultura no interior ao longo destes cinco anos.

Siga.News: Quem visita o site da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia percebe que majoritariamente os recursos da cultura são investidos na capital, Salvador. Qual sua opinião sobre esta distribuição desigual de recursos para a cultura?

Luiza Audaz: A distribuição desigual de recursos é algo que vem sendo colocado em pauta pelos principais ativistas culturais do interior em diversos espaços de debate há muitos anos. Nomes como o cineasta Edson Bastos, de Ipiaú, e os conquistenses Marcelo Lopes e George Neri, para não citar outros tantos produtores, vem se posicionando nas redes, nas conferências, festivais e eventos que se propõe a discutir a cultura no Estado da Bahia, de que é desesperador e notório o fato de que os 416 municípios são ignorados na gestão financeira dos recursos. Parece óbvio, mas, sim, existe vida e produção fora da capital.

Sobre o audiovisual e a música, que são dois eixos em que estou imersa, nós vivenciamos situações desanimadoras no último ano. A primeira situação que aqui pontuo refere-se ao resultado do edital para audiovisual do IRDEB – Instituto de Rádio e Difusão da Bahia em que, mais uma vez, a maioria esmagadora dos projetos audiovisuais aprovado foi de um grupo de soteropolitanos. Desanimador foi ver também companheiros que trabalham na área há tantos anos e vem lutando pra manter o “cinema de guerrilha” do interior, vendo a única oportunidade de produção disponibilizada pelo Estado desaparecendo horizonte afora.

Outros editais, ainda que de iniciativa privada, como o Caravana da Música, patrocinado pela vivo e que apresentou na essência de seu edital o objetivo de dinamizar artistas de todo o território baiano, conseguiram deixar um oco nos corações dos músicos do sudoeste da Bahia, a partir da divulgação da lista de aprovados composta basicamente por nomes já renomados da música soteropolitana. Ainda sobre esse edital, fui informada posteriormente que uma das bandas nem chegou a participar do projeto, alegando que, por já estar pelo eixo Rio-SP, apesar de ser baiana, não valeria a pena o deslocamento pelo valor oferecido. Recentemente o governo divulgou que o projeto Escolas Culturais, que está sendo implementado, disponibilizará um recurso de 15 mil ano para o desenvolvimento das ações nas cidades e regiões, valor irrisório e patético. A verdade é que temos levado alguns baldes de água fria e, ao contrário do que possa parecer, a sede por ocupar estes espaços só tem aumentado.

Siga.News: Do ponto local, qual sua avaliação sobre a política cultural do novo governo municipal?

Luiza Audaz: Sobre a política cultural do novo governo vejo que é emergencial que a administração local, que o poder executivo, que a cúpula enxergue a potência do mercado cultural dessa cidade, valorizando e apoiando as idéias e projetos que batem as portas da Sectel. Nós temos um fluxo de eventos diversos e iniciativas independentes que se multiplicam pela cidade, reforçando o fato de que existe sim uma cadeia produtiva forte e que precisa de fomento. Brigar por uma fatia maior do orçamento é dever da Secretaria de Cultura do Município, alguém precisa comprar essa briga e dirigir-se à cúpula do executivo de maneira propositiva. Ouvimos sempre que não há orçamento, mas, por que então, não buscar convênios? Propor a FUNCEB, por exemplo, que traga atividades de formação mensais para nossa cidade? Ou participar da política de Arranjos Regionais da Ancine para que tenhamos editais municipais para cinema? Sabemos que as limitações existem, mas não podemos ficar inertes e restritos apenas a eventos calendarizados como São João e Natal da Cidade.

Apesar dos pontos que eu creio que precisam ser mudados, é necessário reconhecer alguns acertos como vimos na mudança da política dos editais do município. Privilegiar que os artistas locais protagonizem as atividades financiadas pelo poder público, como vimos no Natal da Cidade e no São João, é de extrema importância para a valorização do artista e fomento do mercado local. No entanto, é preciso querer mais para avançar, expandir a atuação da cultura para as áreas de formação e de fomento. Muito me preocupa ainda a situação de nossos espaços municipais como a Casa Memorial Régis Pacheco e o Cine Madrigal. Enquanto em novembro de 2017 o prefeito liberou a contratação de dois pastores por R$55.0000,00 para a Marcha para Jesus, nós seguimos vendo as artistas sem apoio para seus projetos, vendo também a situação do Cine Madrigal estagnada com o telhado aberto à mercê de chuvas e mofo que invadem todo o ambiente e, por fim, nosso querido Memorial Régis Pacheco necessitando de uma bela pintura. É preciso que o poder público esteja alerta e empenhado para resolver a questão da manutenção e restauração dos espaços públicos dessa cidade que hoje possui apenas dois imóveis tombados. Para que esse sistema de escuta e assimilação do poder público das tantas demandas do setor cultural de fato aconteça, é necessário que exista uma real dialética entre sociedade civil e governo e, neste ponto, a construção do Plano Municipal de Cultura é cada dia mais urgente.

O Conselho Municipal de Cultura se reorganizou de modo que, ainda para o mês de Maio, está prevista uma proposição de audiência pública na Câmara de Vereadores, de modo que o assunto do Plano seja colocado de forma oficial e mais clara pra comunidade, numa dinâmica em que demandas sejam ouvidas e esclarecimentos sejam dados. Outra movimentação que está sendo feita é em relação a um grande encontro da sociedade civil com o objetivo de discutir os eixos culturais que integrarão o Plano, de modo que seja possível otimizar a coleta de pautas e sugestões para as políticas públicas que integrarão o PNC. No mais, sinto que em tempos tenebrosos a única coisa que podemos fazer é juntar nossas forças, nossa energia criativa e nosso poder de resistência para que os caminhos sejam suavizados e nós não nos envergonhemos no futuro de termos desistido, declinado ou deixado de tentar fazer a diferença. Espero de coração que a secretaria de cultura também se alerte e tenha isso em mente.

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